A Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas (MG), mantém uma biofábrica piloto que hoje guarda 8,6 mil acessos de microrganismos — ou seja, 8,6 mil “linhagens” diferentes de fungos, bactérias e vírus que podem virar bioinsumo. Parte desse acervo já vira produto usado no controle biológico de pragas direto no solo, caso da bactéria Bacillus thuringiensis, hoje empregada em mais de 180 culturas no Brasil. Essa notícia, divulgada em setembro de 2026 com base em dados da própria Embrapa e do Sistema Faemg/Senar, mostra por que guardar e multiplicar micro-organismos do bem pode pesar tanto quanto comprar uma nova máquina para dentro da fazenda.
O que é essa biofábrica da Embrapa Milho e Sorgo e por que ela existe
Uma biofábrica é, resumindo, um laboratório que produz seres vivos em vez de produtos químicos. Em vez de misturar moléculas numa indústria, os técnicos multiplicam fungos e bactérias que já existem na natureza e que fazem um trabalho útil para a lavoura: proteger a raiz, atacar uma praga ou liberar um nutriente preso na terra.
A unidade fica na Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas, Minas Gerais, e é tocada por uma equipe liderada pelo pesquisador Fernando Valicente. O trabalho dessa equipe é simples de entender, mesmo sendo complexo na prática: coletar micro-organismos em solos e plantas de diferentes regiões do país, guardar essas linhagens de forma segura (para não se perderem) e testar quais delas servem para algum uso agrícola.
O que isso muda na prática para quem produz: essa biofábrica funciona como um banco de sementes, só que de bactérias e fungos. Sem esse acervo guardado, boa parte dos bioinsumos que chegam à sua revenda hoje simplesmente não existiria, porque a origem de quase todo produto biológico é um micro-organismo isolado e estudado assim, em pesquisa pública.
Por que ter 8,6 mil microrganismos guardados importa pro produtor
O número 8,6 mil acessos parece só uma estatística de laboratório, mas tem efeito direto lá na ponta. Cada acesso é uma aposta: pode virar, no futuro, um produto capaz de resolver um problema específico da sua lavoura — uma praga resistente, um fungo de solo, uma seca prolongada. Quanto maior esse banco de linhagens, maior a chance de a pesquisa achar um “candidato” eficiente contra um problema novo, da mesma forma que um estoque grande de peças sobressalentes aumenta a chance de ter a peça certa guardada quando algo quebra na colheitadeira.
- Mais opções contra resistência: pragas e doenças vão, aos poucos, se acostumando com produtos repetidos. Ter um banco grande de microrganismos permite trocar o “ingrediente ativo” biológico de tempos em tempos.
- Solução para regiões diferentes: um fungo que funciona bem no Cerrado pode não ter o mesmo desempenho no Sul. Um acervo grande aumenta a chance de existir uma linhagem adaptada ao clima e ao solo da sua região.
- Menos dependência de importação: boa parte do defensivo químico usado no Brasil vem de fora. Um banco nacional de microrganismos é matéria-prima para o país desenvolver soluções próprias.
O que isso muda na prática para quem produz: a variedade de bioinsumos disponíveis na sua região tende a crescer nos próximos anos, com mais opções específicas para a praga, a cultura e o clima da sua propriedade, em vez de um produto genérico só.
O que é, de fato, controle biológico de pragas no solo
Controle biológico de pragas no solo é usar um ser vivo — fungo, bactéria ou até vírus — para atacar ou afastar uma praga, no lugar (ou além) de um inseticida químico. A diferença central é que o agente biológico é vivo: ele pode se multiplicar no solo, se manter ativo por mais tempo e, em muitos casos, ser mais seletivo, atingindo a praga-alvo sem prejudicar outros organismos úteis, como minhocas e fungos que ajudam a nutrir a planta.
Pense assim: o defensivo químico age como um ataque pontual, rápido, mas que passa. Já o agente biológico bem estabelecido no solo funciona como uma guarnição permanente, que continua trabalhando safra após safra, desde que as condições de solo e manejo sejam favoráveis a ele.
O que isso muda na prática para quem produz: ao introduzir esses organismos no solo, você não está apenas comprando um “efeito de uma aplicação”. Está, aos poucos, mudando a população de micro-organismos da sua área, o que pode reduzir a pressão de praga ano após ano, e não só naquela safra em que o produto foi aplicado.
Bacillus thuringiensis e outros aliados que saem dessa biofábrica
Um dos organismos citados no trabalho da Embrapa é o Bacillus thuringiensis, conhecido no meio agrícola pela sigla Bt. É uma bactéria de solo, usada há décadas no mundo todo, que produz uma proteína tóxica especificamente para o sistema digestivo de determinadas lagartas. Ela é considerada segura para pessoas, animais e insetos que não são o alvo, justamente porque essa proteína só faz efeito dentro do intestino da praga específica.
A biofábrica de Sete Lagoas também trabalha com baculovírus, usado no controle de lagartas, e com outras bactérias multiplicadas para diferentes fins, incluindo nutrição da planta. Juntos, esses organismos hoje são usados em mais de 180 culturas no país, do milho e da soja a frutas, arroz e até capim de pastagem.
O que isso muda na prática para quem produz: se você já usa produtos à base de Bt no controle de lagartas, pode ficar tranquilo de que a base científica por trás não é nova nem experimental — é uma tecnologia consolidada, e o trabalho de bancos como o da Embrapa é justamente aprimorar as linhagens disponíveis e adaptá-las a novas pragas e regiões.
Da pesquisa ao produto na prateleira: como esse processo funciona
Ter um microrganismo isolado no laboratório é só o primeiro passo. Antes de virar um produto que você compra na revenda, ele passa por seleção em laboratório, testes em campo em diferentes solos e climas, e só depois registro no Ministério da Agricultura, quando eficácia e segurança já estão comprovadas. Segundo a Embrapa, o Brasil somou 6,3 mil pedidos de patente ligados a bioinsumos entre 2012 e 2025, sinal de que esse “funil” da pesquisa até o produto final está bem mais movimentado do que há uma década. Depois de aprovado, o microrganismo é multiplicado em maior volume, por empresas privadas ou por biofábricas como a de Sete Lagoas, até chegar embalado na sua propriedade.
O que isso muda na prática para quem produz: quando você compra um bioinsumo registrado, está levando para a lavoura um organismo que já passou por todo esse crivo — não é um produto artesanal ou caseiro, mas uma tecnologia validada em campo antes de chegar à embalagem.
O que os números mostram sobre o retorno desses bioinsumos
A Embrapa também divulgou o impacto econômico de outro bioinsumo nascido do mesmo trabalho de pesquisa em Sete Lagoas, o BiomaPhos, uma bactéria que ajuda a planta a aproveitar o fósforo que já está no solo, mas que fica “travado” e indisponível para a raiz. Segundo a pesquisadora Christiane Abreu de Oliveira Paiva, esse bioinsumo gerou R$ 4,2 bilhões em benefícios ao produtor entre 2019 e 2023, e R$ 105 milhões somente em 2020.
Isso ajuda a entender por que o país tem investido tanto nesse tipo de pesquisa: até 90% do fertilizante fosfatado usado no Brasil fica retido no solo sem ser aproveitado pela planta na safra em que foi aplicado. Um organismo capaz de destravar parte desse nutriente já parado na terra representa economia direta de adubo comprado.
O que isso muda na prática para quem produz: o investimento num bioinsumo bem registrado não deve ser visto como um “gasto extra” de tecnologia, mas como uma forma de aproveitar melhor o que você já aplicou no solo em anos anteriores, reduzindo a necessidade de repor tudo do zero a cada safra.
Perguntas Frequentes
Biofábrica é a mesma coisa que uma fábrica de defensivo químico?
Não. Uma fábrica química produz moléculas sintéticas em reatores industriais. Uma biofábrica multiplica seres vivos — fungos, bactérias ou vírus — em condições controladas, para depois virar um produto biológico. O processo lembra mais uma incubadora do que uma indústria química tradicional.
Bacillus thuringiensis é seguro para usar perto de água ou de animais na propriedade?
Sim, é considerado seguro quando aplicado conforme a bula, porque a toxina que ele produz só age no sistema digestivo de determinadas lagartas-alvo. Ainda assim, todo produto biológico registrado traz recomendações específicas de aplicação que devem ser seguidas à risca, como qualquer outro defensivo.
Esses microrganismos da biofábrica já estão disponíveis para eu comprar na minha região?
Depende do produto. Alguns, como os à base de Bt, já são vendidos há anos por diversas empresas. Outros, ainda em fase de teste ou registro, podem levar mais tempo para chegar às revendas. O caminho até a prateleira passa sempre por registro no Ministério da Agricultura, então vale perguntar ao seu agrônomo quais bioinsumos já têm registro para a sua cultura e região.
Vale a pena trocar todo o controle químico de pragas por controle biológico?
Na maioria dos casos, o mais indicado é o manejo integrado, combinando as duas ferramentas, e não a substituição total de um pelo outro. O controle biológico costuma funcionar melhor como parte de uma estratégia mais ampla, reduzindo a dependência do químico e ajudando a evitar que as pragas criem resistência.
Como sei se um microrganismo comprado é o mesmo estudado pela Embrapa?
Verifique se o produto tem registro no Ministério da Agricultura e Pecuária e se o rótulo indica claramente a espécie do microrganismo usado. Produtos com origem em pesquisa pública, como os desenvolvidos em parceria com a Embrapa, costumam citar essa origem na própria embalagem ou na bula técnica.
