Se você produz em Santa Catarina, sabe que a chuva quando vem forte não perdoa a lavoura. Para proteger a terra e evitar que os nutrientes vão parar no riacho mais próximo, muitos produtores catarinenses estão voltando a usar uma técnica antiga, mas extremamente eficiente: o terraceamento. Com a chegada do fenômeno El Niño, que castiga o Sul do país com chuvas muito acima da média, essa prática virou uma verdadeira ferramenta de sobrevivência para manter o solo produtivo e conter a erosão. Segundo dados divulgados em reportagens do Canal Rural, a adoção dessas barreiras de terra tem sido a salvação de muitas propriedades que antes sofriam com a perda de área plantada a cada tempestade.

O que é o Terraceamento e como ele protege o seu solo?

Imagine que o morro da sua propriedade é uma rampa lisa. Se você jogar um balde de água no topo, ela vai descer com toda a força, ganhando velocidade até o final. Agora, se essa rampa tiver degraus, a água vai batendo em cada degrau, perdendo força e parando pelo caminho. O terraceamento agrícola funciona exatamente assim.

Na prática, o terraço é uma barreira de terra (uma espécie de camalhão ou curva alta) construída no sentido contrário ao da descida da água. Quando a chuva forte cai na lavoura, a enxurrada começa a descer, mas logo encontra essa barreira de terra. A água bate ali, perde velocidade e acumula temporariamente, ganhando tempo para infiltrar na terra em vez de correr morro abaixo levando tudo.

Sem essa proteção, o solo sofre com a erosão hídrica (a perda de terra causada pela força da água). A enxurrada carrega a argila, a matéria orgânica e, principalmente, o adubo e o calcário que você pagou caro para colocar na lavoura.

O que isso muda na prática para quem produz: Você deixa de ver o seu investimento em fertilizantes ir embora na primeira chuva forte. O terraço segura a água e os nutrientes no pé da planta, garantindo que o investimento em adubação realmente vire produtividade na colheita.

A realidade de Santa Catarina: Por que o relevo exige atenção dobrada?

O estado de Santa Catarina tem características muito específicas que tornam o cuidado com a terra ainda mais urgente. Grande parte das nossas lavouras de grãos, pastagens e pomares fica em áreas de relevo acidentado, ou seja, terrenos cheios de subidas, descidas e encostas íngremes.

Em terrenos com muita declividade (terras muito inclinadas), a força da água da chuva dobra de velocidade rapidamente. Se o produtor trabalha apenas com o cultivo morro abaixo, ou mesmo sem nenhuma barreira física, a água ganha força de trator. Em poucas safras, surgem canaletas na lavoura que logo viram voçorocas — aquelas fendas enormes na terra que impedem até a passagem das máquinas.

Além disso, a agricultura catarinense é forte na produção familiar, onde cada hectare de terra conta muito para a renda mensal. Perder solo fértil por falta de conservação significa reduzir o tamanho produtivo da sua propriedade a cada ano.

O que isso muda na prática para quem produz: Em regiões montanhosas como as de Santa Catarina, o terraceamento não é um capricho, mas a garantia de que você continuará tendo terra fértil para plantar daqui a dez ou vinte anos. Ele evita o empobrecimento rápido da propriedade e protege as estradas internas contra atoleiros e desmoronamentos.

O impacto do El Niño: Por que o clima extremo exige proteção imediata?

O El Niño é um fenômeno climático conhecido pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Para nós, aqui na região Sul, ele se traduz em uma realidade dura: bloqueios atmosféricos que impedem a saída de frentes frias, provocando períodos longos de chuvas torrenciais, muitas vezes com granizo e vendavais.

Quando enfrentamos um ano sob a influência do El Niño, o volume de chuva que normalmente cairia em dois ou três meses costuma desabar em apenas dois ou três dias. O solo tem um limite de absorção, que chamamos de saturação (quando a terra fica parecendo uma esponja encharcada que não consegue segurar mais nenhuma gota).

Depois que o solo satura, toda a água que continua caindo vira enxurrada imediata. É nesse momento que as lavouras sem proteção são destruídas, com sementes recém-plantadas sendo arrancadas da terra e plantas jovens sendo soterradas pela lama.

O que isso muda na prática para quem produz: Sabendo que o clima está mais extremo por causa do El Niño, o terraceamento funciona como um seguro para a lavoura. Mesmo que chova o dobro do esperado, os terraços controlam o fluxo dessa água, evitando que o excesso vire uma força destruidora que limpa o seu plantio.

Como planejar o terraceamento para de fato conter a erosão?

Não basta simplesmente entrar com o trator na lavoura e começar a levantar terra de qualquer jeito. Um terraço construído no lugar errado ou sem o cálculo correto pode acumular água demais em um ponto fraco, romper e causar um estrago ainda maior morro abaixo, funcionando como uma represa que se rompe.

Para conseguir conter a erosão de forma eficiente, o planejamento deve seguir alguns passos essenciais:

  • Medição da declividade: É preciso calcular a inclinação do terreno para saber a distância exata entre um terraço e outro. Quanto mais inclinado for o morro, mais próximos os terraços devem ficar.
  • Análise do tipo de solo: Solos mais arenosos (com muita areia) são mais fáceis de desmoronar e precisam de terraços mais largos. Já solos argilosos (terra vermelha e pesada) demoram mais para absorver a água, exigindo canais que ajudem no escoamento lento.
  • Marcação em curva de nível: As curvas de nível são linhas imaginárias que mantêm sempre a mesma altura ao redor do morro. O terraço precisa seguir essa linha com precisão para que a água fique distribuída por igual ao longo de toda a estrutura.

O que isso muda na prática para quem produz: Fazer o terraceamento com o apoio de um técnico agrícola ou engenheiro agrônomo garante que a obra dure muitos anos. Um terraço bem dimensionado traz paz de espírito para o produtor, que sabe que pode chover forte durante a noite sem que a lavoura amanheça cortada por valas de erosão.

Tipos de terraço: Qual é o melhor para a sua área?

Existem basicamente dois tipos de terraços que você pode construir na sua propriedade, dependendo de como a água precisa ser tratada:

  • Terraço de infiltração (ou de retenção): É construído em nível perfeito (plano). Ele segura toda a água da chuva no canal para que ela infiltre lentamente no solo. É ideal para áreas onde o solo é profundo e tem boa capacidade de absorver água.
  • Terraço de escoamento (ou de gradiente): Esse tipo tem uma inclinação muito suave para um dos lados. Ele segura a água por um momento, mas direciona o excesso de forma lenta e segura até um canal vegetado ou área de mata. É o mais indicado para solos rasos ou muito argilosos, que encharcam rápido demais.

O que isso muda na prática para quem produz: Escolher o modelo certo evita o alagamento excessivo da lavoura, o que poderia sufocar as raízes das plantas, garantindo que o excesso de água saia da área sem causar estragos.

Quanto custa e qual o retorno do investimento em conservação?

Muitos produtores adiam a construção de terraços porque olham apenas para o custo imediato: o gasto com óleo diesel do trator, as horas de trabalho do operador e o fato de ter que mudar um pouco o sentido do plantio.

Porém, a conta real deve ser feita pensando no prejuízo que a falta do terraço causa. Perder uma camada de 1 centímetro de solo fértil em um hectare equivale a perder cerca de 15 toneladas de terra rica em matéria orgânica e nutrientes. Para repor esses nutrientes comprando adubo ensacado, o custo é absurdamente maior do que o valor gasto na construção e manutenção dos terraços.

Além disso, o terraceamento melhora a reserva de água no solo. Em períodos de veranico (aqueles dias sem chuva no meio do verão), as plantas que estão em áreas terraceadas demoram mais para murchar porque o solo conseguiu guardar muito mais água das chuvas passadas.

O que isso muda na prática para quem produz: O investimento se paga já na primeira safra de clima extremo. Você gasta menos com adubação corretiva ao longo dos anos e mantém a produtividade da lavoura estável, mesmo enfrentando as oscilações do clima catarinense.

Perguntas Frequentes sobre Terraceamento em Santa Catarina

O terraço não vai atrapalhar a passagem das minhas máquinas na lavoura?

Não, desde que seja construído o chamado “terraço de base larga”. Esse tipo de terraço tem rampas suaves e largas que permitem que plantadeiras, pulverizadores e colheitadeiras passem por cima dele sem tombar ou danificar os equipamentos. O plantio é feito normalmente sobre o próprio terraço.

Eu posso fazer o terraceamento sozinho na minha propriedade?

A construção física com o trator e a lâmina ou arado de discos pode ser feita por você, mas a marcação das curvas de nível deve ser feita por um profissional (técnico da Epagri, cooperativa ou agrônomo particular). Usar ferramentas de precisão para marcar o nível correto é o que garante que a estrutura não vá romper na primeira chuva forte.

De quanto em quanto tempo eu preciso refazer ou limpar os terraços?

Se você utiliza o sistema de plantio direto (com bastante palha protegendo a terra) e faz a rotação de culturas, a manutenção é mínima, durando muitos anos sem mexer. Já em áreas onde a terra é muito trabalhada e fica descoberta, pode ser necessário passar a lâmina para limpar o canal do terraço a cada duas ou três safras, ou logo após eventos de chuvas extremas como as provocadas pelo El Niño.