No fim de outubro de 2026, pesquisadores e empresas do setor cafeeiro se reuniram em Caxambu (MG) para o 50º Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, promovido pela Fundação Procafé. Entre os destaques apresentados estava um bionematicida registrado recentemente no Brasil, feito à base de bactérias que colonizam a raiz do cafeeiro. Na prática, isso mostra que o combate aos nematoides — vermes microscópicos que vivem no solo e atacam a raiz do café por dentro — está ganhando uma nova ferramenta biológica, justamente em um momento em que a cafeicultura brasileira colhe uma das maiores safras de sua história.

O que aconteceu no 50º Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras

O congresso reuniu, entre os dias 27 e 30 de outubro, pesquisadores, cooperativas e empresas de insumos em Caxambu, no sul de Minas Gerais. É o principal evento técnico do setor cafeeiro no país, e nele empresas aproveitam para apresentar os produtos que chegaram ao mercado nos últimos meses.

Segundo dados do IBGE citados durante o evento, a safra brasileira de café deve somar algo em torno de 3,5 milhões de toneladas em 2025, com valor de produção próximo de R$ 100 bilhões — e Minas Gerais respondendo por cerca de 45% desse volume. Esses números ajudam a explicar por que qualquer tecnologia que proteja a raiz do cafeeiro, reduzindo perdas por pragas de solo, chama tanta atenção do setor.

O que isso muda na prática: quando o assunto é levado para um congresso desse tamanho, com a presença de Procafé e de diversas empresas de insumos biológicos, é sinal de que a tecnologia já passou pela fase de registro e está disponível (ou prestes a estar) para compra pelo produtor — não é mais só pesquisa de laboratório.

Por que o nematoide é um problema que o produtor só vê tarde demais

Nematoides são vermes transparentes, do tamanho de um fio de cabelo cortado em pedacinhos, que vivem na água que fica entre as partículas do solo. Eles picam a raiz do cafeeiro para se alimentar, abrindo feridas que servem de porta de entrada para fungos e bactérias.

O problema é que o dano começa embaixo da terra e só aparece na parte visível da planta quando já está avançado: folhas amareladas, queda de vigor, plantas que não respondem à adubação do jeito que deveriam. Em cafezais mais antigos ou em solos arenosos, a infestação pode reduzir a absorção de água e nutrientes a ponto de encurtar a vida produtiva do cafezal, que normalmente deveria durar 15 a 20 anos.

O que isso muda na prática para quem produz: se uma parte do cafezal não responde à adubação, murcha mais rápido que o resto em período de seca ou tem crescimento atrasado sem motivo aparente, vale arrancar uma planta com cuidado e observar a raiz, ou enviar amostra de solo e raiz para um laboratório de nematologia antes de simplesmente aumentar a dose de adubo.

O que é o Nimaxxa e como ele age dentro do solo

Um dos produtos apresentados no congresso foi batizado como o primeiro bionematicida com ação bioestimulante registrado no Brasil. Ele é formulado com três cepas diferentes de uma bactéria do gênero Bacillus, aplicada de forma líquida.

  • As bactérias colonizam a superfície da raiz do cafeeiro, formando o que a empresa descreve como uma barreira biológica.
  • Essa barreira dificulta que o nematoide encontre e penetre na raiz, reduzindo a reinfestação ao longo do ciclo.
  • Por ser um organismo vivo que se multiplica, o efeito tende a durar mais do que um nematicida químico de contato, que age rápido mas perde força em poucas semanas.
  • Como tem ação bioestimulante associada, a empresa relata também ganho de vigor radicular, além do efeito direto sobre a praga.

O que isso muda na prática para quem produz: um produto biológico desse tipo não substitui o diagnóstico. Ele funciona melhor quando aplicado depois que o produtor já sabe, por análise de laboratório, que tem nematoide na área, e dentro de um programa de manejo que inclui rotação com plantas de cobertura e cuidado com a compactação do solo — não como aplicação isolada de última hora.

Cuidados na aplicação de bioinsumos à base de Bacillus

Como qualquer produto biológico, a eficiência do Nimaxxa e de produtos semelhantes depende de ele chegar vivo até a raiz. Isso significa evitar misturar a calda com defensivos químicos agressivos no mesmo tanque, usar água sem cloro em excesso e não deixar o produto exposto ao sol forte por muito tempo antes da aplicação.

O que isso muda na prática para quem produz: gastar com um bioinsumo e aplicá-lo de qualquer jeito é o mesmo que não aplicar nada — o produtor perde o investimento sem perceber, porque o problema visual (nematoide) continua, mas a causa real foi a bactéria morta antes de chegar à raiz.

Bioasis Power: proteção da raiz contra a seca, outra peça do mesmo quebra-cabeça

Outro destaque do congresso foi um ativador microbiológico chamado Bioasis Power, apresentado como um produto que forma uma espécie de biofilme ao redor da raiz do cafeeiro. Segundo a empresa, esse biofilme ajuda a planta a aproveitar melhor a água que já está disponível no solo em períodos de restrição hídrica.

Isso é relevante porque, em grande parte das regiões cafeeiras do Brasil, a chamada quebra de dormência das gemas florais e o enchimento dos grãos dependem diretamente de chuva bem distribuída. Qualquer tecnologia que ajude a raiz a captar a água disponível no solo com mais eficiência reduz o impacto de veranicos sobre a produtividade.

O que isso muda na prática para quem produz: em talhões historicamente mais sujeitos a estresse hídrico, vale considerar esse tipo de ativador radicular como parte da estratégia de manejo de solo, junto com práticas já conhecidas, como cobertura morta e adubação orgânica, que também ajudam o solo a reter umidade.

Como esses lançamentos se encaixam no manejo de solo de culturas perenes como café e cana

Café e cana-de-açúcar compartilham uma característica que muda totalmente a lógica do manejo de solo: depois de implantada a lavoura, não é mais possível arar ou gradear fundo sem destruir as raízes já formadas. Isso torna o cuidado contínuo com a vida do solo — e não só a correção química feita antes do plantio — uma estratégia de longo prazo.

  • Monitore antes de aplicar: faça análise de solo e, se houver suspeita, análise nematológica, antes de decidir por um bioinsumo específico.
  • Combine ferramentas: bionematicidas biológicos funcionam melhor associados a plantas de cobertura entre linhas e ao controle da compactação, não como solução isolada.
  • Cuide da aplicação: produtos vivos exigem tanque limpo, água de qualidade e aplicação fora do calor extremo do meio-dia.
  • Pense no ciclo todo: como o café e a cana ficam anos no mesmo lugar, o retorno de um investimento em saúde de raiz se paga ao longo de várias safras, não em uma única colheita.

O que isso muda na prática para quem produz: encarar o cuidado com a raiz como parte do calendário normal do cafezal — e não como um “apagar incêndio” quando a planta já está visivelmente fraca — é o que separa uma lavoura que mantém produtividade alta por 15 ou 20 anos de uma que precisa de reforma precoce.

Perguntas Frequentes

Esses bioinsumos apresentados no congresso já estão disponíveis para compra?

Os produtos citados foram apresentados como lançamentos recentes, já registrados no Brasil. Isso significa que já passaram pela fase de aprovação, mas a disponibilidade comercial na sua região e o preço devem ser confirmados diretamente com revendas ou cooperativas locais.

Um bionematicida biológico substitui a análise de solo?

Não. O produto age sobre o nematoide, mas só faz sentido econômico aplicar depois que uma análise de solo e, se possível, de raiz confirma qual tipo de nematoide está presente e em que nível de infestação, para não gastar com um tratamento que a sua área talvez não precise.

Esse tipo de tecnologia também serve para cana-de-açúcar?

O princípio de usar bactérias que colonizam a raiz para proteger contra pragas de solo e ajudar na absorção de água vale para outras culturas perenes e semiperenes, incluindo a cana. Mas cada cultura tem pragas e condições de solo diferentes, então o ideal é verificar com o fabricante se existe registro e recomendação específica para cana antes de aplicar.

Como sei se o meu cafezal tem problema de nematoide e não outra causa de baixo vigor?

Sinais como amarelecimento em reboleiras (manchas), plantas que não crescem mesmo bem adubadas e murcha mais rápida que o resto da lavoura em período de seca são indícios. A confirmação só vem com análise de laboratório, usando amostras de solo e raiz coletadas na zona de transição entre plantas saudáveis e doentes.

Vale a pena usar um ativador radicular como o Bioasis Power em áreas sem histórico de seca forte?

Em áreas com chuva bem distribuída e sem histórico de veranico, o retorno desse tipo de produto tende a ser menor. Ele faz mais sentido em talhões que já mostraram queda de produtividade em anos secos, onde melhorar o aproveitamento da água disponível no solo tem impacto direto na manutenção da safra.