A Conab projetou a safra de cana-de-açúcar 2026/27 em 705,2 milhões de toneladas, um crescimento de 4,7% sobre o ciclo anterior. Esse número depende diretamente de como cada produtor cuida do solo onde fica a soqueira — a parte da planta que sobra no chão depois do corte e que vai gerar a próxima brotação. É justamente nesse pedaço de solo que vivem as duas pragas que mais ameaçam a produtividade da cana hoje: o bicudo-da-cana e a cigarrinha-das-raízes.
O que a Conab projetou para a safra 2026/27
Segundo dados da Conab, a área de colheita deve chegar a 9,1 milhões de hectares, com produtividade média nacional de cerca de 77,9 toneladas por hectare. Esse avanço de 4,7% reflete tanto a expansão de área plantada quanto a demanda firme do mercado de açúcar e etanol.
O que isso muda na prática: manter a lavoura dentro ou acima dessa média de produtividade não é só uma meta técnica — é o que garante que o investimento feito na formação do canavial se pague. O modelo de negócio da cana costuma amortizar o custo de implantação em 5 a 7 cortes. Se a produtividade cai antes disso, o custo por tonelada sobe e o retorno financeiro do talhão fica comprometido.
O que é a soqueira e por que ela decide a próxima safra
Depois que a colhedora passa, fica no solo a soqueira: raízes e a base dos colmos que vão brotar de novo para formar a próxima safra. Pense nela como a “raiz de reserva” da lavoura — se ela estiver sadia, a rebrota é uniforme e vigorosa; se estiver comprometida, aparecem falhas na linha e a produtividade cai de corte em corte.
O período logo após a colheita é o momento mais sensível. É quando a planta precisa recuperar reservas de energia, fortalecer o sistema radicular e emitir brotos novos. Qualquer estresse nessa fase — seja praga, seja compactação do solo por máquina pesada — reduz o potencial da safra seguinte antes mesmo dela nascer.
O que isso muda na prática: o cuidado com a soqueira não é uma etapa isolada — é um ciclo que se repete a cada corte. Negligenciar um corte compromete os próximos, porque a soqueira carrega o histórico de estresse de uma safra para a outra.
Bicudo-da-cana: a praga que vive dentro do solo
O bicudo-da-cana (nome científico Sphenophorus levis) é um besouro cujas larvas se instalam justamente na camada mais profunda do solo, dentro dos rizomas da soqueira. Lá, elas abrem galerias e destroem o tecido que deveria gerar novos brotos, causando morte de perfilhos e falhas visíveis na lavoura.
- Pode causar perda estimada de até 25 toneladas por hectare em cortes sucessivos quando não controlado.
- Tem de 4 a 5 gerações por safra, ou seja, a praga se multiplica várias vezes dentro do mesmo ciclo.
- Não voa. Se espalha de uma área para outra principalmente através de máquinas, implementos e mudas ou toletes contaminados.
- Como o ataque começa embaixo da terra, a detecção visual costuma vir tarde, quando o dano já avançou.
O que isso muda na prática: como o bicudo não voa, ele só chega numa área nova “de carona” em trator, colhedora ou muda infestada. Higienizar equipamento entre talhões e usar mudas de viveiros inspecionados é, na prática, a barreira mais barata contra essa praga — muito mais barata do que tratar uma área já infestada.
Cigarrinha-das-raízes: sucção que começa embaixo da terra
A cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata) tem um ciclo parecido no que diz respeito ao solo. As ninfas ficam nas raízes mais superficiais, sugando a seiva da planta e produzindo uma espuma protetora na base das touceiras — por isso o nome popular de “cigarrinha da espuma” em algumas regiões. Já na fase adulta, o inseto migra para a parte aérea e causa necrose nas folhas, amarelecimento e secamento precoce dos colmos.
- Em áreas comerciais comuns, a perda de produtividade pode chegar a 50%.
- Em talhões de alto potencial produtivo, a perda de TCH (toneladas de cana por hectare) pode atingir 80% quando a infestação é severa.
- Tem várias gerações por safra e sua intensidade está diretamente ligada à umidade do solo.
O que isso muda na prática: como o ciclo da cigarrinha depende de umidade, períodos mais chuvosos pedem monitoramento mais frequente — não só olhar a parte aérea da planta, mas abrir a base da touceira e checar se há espuma ou ninfas.
Palhada: protege o solo, mas também pode abrigar a praga
A colheita mecanizada sem queima deixa a palhada sobre o solo, e isso é bom para conservar umidade e devolver nutrientes ao sistema aos poucos, conforme a palha se decompõe. O problema é que essa mesma camada de palha cria um ambiente úmido e protegido que favorece justamente as ninfas da cigarrinha-das-raízes, além de dificultar a visualização dos primeiros sinais do ataque do bicudo.
O que isso muda na prática: manter a palhada não é o problema — é não monitorar por trás dela que é. Quem decide manter a cobertura (e a recomendação geral é mantê-la, pelos benefícios para o solo) precisa compensar isso com inspeção mais ativa na base das touceiras, em vez de confiar só na observação da parte aérea da lavoura.
O que muda no manejo do solo entre um corte e outro
Juntando a projeção da Conab com o comportamento dessas duas pragas de solo, alguns pontos de manejo ganham peso redobrado nesta safra 2026/27:
- Mudas sadias: usar material propagativo de viveiros inspecionados, livres de pragas e doenças, reduz o risco de introduzir o bicudo numa área nova.
- Higienização de máquinas: limpar colhedoras, tratores e implementos antes de passar de um talhão ou de uma fazenda para outra corta a principal via de disseminação do bicudo.
- Monitoramento por amostragem: abrir touceiras em pontos espalhados pela área para contar larvas, ninfas e adultos é o que permite agir antes do dano virar prejuízo visível.
- Atenção ao pós-colheita imediato: é na janela logo depois do corte que a soqueira está mais vulnerável — compactação de solo por tráfego de máquina nesse momento agrava qualquer estresse já causado pelas pragas.
- Nutrição equilibrada: soqueira bem nutrida se recupera mais rápido de qualquer ataque, o que reduz a chance de falha de estande virar replantio antecipado.
O que isso muda na prática: nenhuma dessas ações, isoladamente, substitui as outras. É a combinação de muda sadia, máquina limpa e olho na touceira que protege o investimento feito na formação do canavial — justamente o investimento que precisa durar de 5 a 7 cortes para se pagar.
Perguntas Frequentes
O que é soqueira da cana-de-açúcar?
É a estrutura — raízes e base dos colmos — que fica no solo depois da colheita e que dá origem à rebrota da safra seguinte. É basicamente a “base” de onde a próxima cana vai nascer, por isso o cuidado com ela decide a produtividade dos próximos cortes.
Por que é tão difícil perceber o ataque do bicudo-da-cana antes de perder produtividade?
Porque as larvas atacam dentro do solo, nos rizomas, e não na parte visível da planta. O produtor só percebe quando já aparecem falhas na lavoura ou perfilhos mortos — nesse ponto, o dano já está feito.
Manter a palhada da colheita crua sobre o solo é prejudicial?
Não é prejudicial em si — ao contrário, ajuda a conservar umidade e devolver nutrientes ao solo. O cuidado extra é que essa camada também pode abrigar a cigarrinha-das-raízes, então quem mantém a palhada precisa monitorar a base das touceiras com mais atenção.
Como saber se a produtividade da minha lavoura está dentro da média projetada pela Conab?
A média nacional projetada para 2026/27 é de cerca de 77,9 toneladas por hectare. Comparar sua produtividade por talhão com esse número ajuda a identificar áreas que já estão perdendo rendimento por problema de solo, praga ou soqueira envelhecida antes mesmo da colheita terminar.
O que fazer logo depois da colheita para proteger a soqueira?
Evitar tráfego desnecessário de máquina pesada sobre a linha, higienizar os equipamentos antes de seguir para outro talhão e já programar o monitoramento da touceira nas primeiras semanas de rebrota, quando a planta está mais vulnerável a pragas de solo e a estresse.
