Uma pesquisa da Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada, em parceria com a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), está monitorando o solo em sete regiões diferentes do Paraná para entender por que a mesma prática de manejo dá resultado diferente de uma fazenda para outra. A resposta, até agora, aponta numa direção clara: o solo não é igual nem dentro da mesma propriedade, e só um mapeamento com amostragem georreferenciada — aquela que usa GPS para marcar exatamente de onde cada amostra saiu — consegue mostrar essa diferença no talhão.

O que a pesquisa no Paraná está mostrando

A Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada é uma iniciativa que reúne pesquisadores, financiada pelo Sistema FAEP (a federação da agricultura do Paraná) e pela Fundação Araucária, com execução técnica da Unicentro. Desde 2024 ela monitora sete áreas experimentais espalhadas pelo estado: Presidente Castelo Branco e Cianorte, no Noroeste; Cambé, no Norte; Ponta Grossa, nos Campos Gerais; Guarapuava, no Centro-Sul; Dois Vizinhos, no Sudoeste; e Toledo, no Oeste.

Em cada uma dessas áreas, os pesquisadores montaram parcelas grandes de observação — chamadas de megaparcelas — com e sem terraços, e coletam amostras para medir matéria orgânica, pH, capacidade de troca de cátions (a capacidade do solo de reter nutrientes, conhecida como CTC) e os teores de fósforo e potássio.

O que isso muda na prática: o resultado já aparece dividido em dois grupos de solo bem diferentes. Guarapuava, Dois Vizinhos, Toledo e Cambé têm solos argilosos, que retêm mais água e nutrientes. Já Cianorte, Presidente Castelo Branco e parte de Ponta Grossa têm solos mais arenosos, que perdem água e adubo com mais facilidade. Ou seja: a mesma dose de calcário ou de adubo que funciona bem num solo argiloso pode ser insuficiente — ou desperdiçada — num solo arenoso a poucos quilômetros de distância.

Por que o solo varia tanto dentro da mesma fazenda

Se sete regiões do Paraná já mostram solos tão diferentes entre si, dentro de uma única propriedade a variação também existe — só que em escala menor. Uma parte do talhão pode estar numa parte mais alta e arenosa, e outra numa baixada mais argilosa e úmida. Isso acontece por causa do relevo, da proximidade de um curso d’água, do histórico de uso da área (se já foi pasto, lavoura antiga, ou mata) e até da erosão acumulada ao longo dos anos.

O problema é que, na maioria das lavouras, a análise de solo ainda é feita de um jeito só: pega-se uma amostra “composta”, misturando terra de vários pontos do talhão, e manda-se para o laboratório como se o talhão fosse uma coisa só. O resultado é uma média — e média, no campo, esconde problema. Uma parte da área pode estar precisando de muito mais calcário do que a média aponta, e outra pode estar recebendo adubo que não precisa.

O que é amostragem georreferenciada, afinal

Amostragem georreferenciada é simplesmente pegar amostras de solo em pontos marcados por GPS, em vez de misturar tudo numa amostra só. Cada ponto de coleta fica salvo com sua coordenada exata — o GPS garante que, da próxima vez, dá para voltar naquele mesmo lugar e comparar o resultado ano a ano.

Na prática, isso é feito de duas formas principais:

  • Amostragem em grade (grid): o talhão é dividido em quadrados de tamanho fixo (por exemplo, um ponto a cada 2 ou 3 hectares), e se coleta uma amostra em cada ponto da grade, sem levar em conta se o solo parece igual ou diferente.
  • Amostragem por zona de manejo: antes de sair coletando, o produtor (ou o agrônomo) separa o talhão em zonas que já parecem diferentes — por cor do solo, produtividade histórica, imagem de satélite ou mapa de topografia — e coleta amostras dentro de cada zona.

O que isso muda na prática: em vez de um resultado médio para toda a área, o produtor recebe um mapa de fertilidade do talhão, com cores mostrando onde o solo está mais ácido, onde falta fósforo, onde sobra potássio. Esse mapa é a base para a aplicação em taxa variável — quando o maquinário ajusta a dose de calcário ou adubo automaticamente conforme passa por cada zona, em vez de aplicar a mesma dose em todo o talhão.

Como aplicar isso na sua propriedade, passo a passo

Não é preciso ser uma rede de pesquisa para começar a mapear o solo da fazenda. O caminho costuma seguir esta ordem:

  • Escolha o método de grade ou de zona de manejo. Grade é mais simples de contratar e mais previsível no custo; zona de manejo aproveita histórico de produtividade e imagens de satélite, quando disponíveis, e costuma gastar menos amostras.
  • Defina a densidade de pontos. Em áreas mais uniformes, um ponto a cada 3 a 5 hectares já ajuda. Em áreas com relevo mais quebrado ou histórico de manejo desigual, vale adensar para um ponto a cada 1 a 2 hectares.
  • Use GPS ou aplicativo de celular para marcar os pontos. Hoje existem aplicativos que guiam o coletor até cada ponto da grade e já salvam a coordenada junto com a amostra, o que facilita repetir a coleta nos próximos anos.
  • Peça ao laboratório o resultado por ponto, não só a média. Isso é o que permite depois montar o mapa de fertilidade do talhão.
  • Repita a cada 2 a 3 anos nos mesmos pontos. Só assim é possível comparar e ver se a correção aplicada está funcionando.

Erros comuns ao mapear o solo

Alguns deslizes comprometem o investimento em amostragem georreferenciada antes mesmo de ela começar a dar retorno:

  • Misturar amostras de pontos diferentes depois de coletadas. Isso anula todo o propósito do georreferenciamento — cada ponto precisa ir separado para o laboratório.
  • Trocar os pontos de coleta de um ano para o outro. Sem repetir exatamente o mesmo lugar, não há como comparar a evolução do solo.
  • Ignorar o relevo e o histórico da área na hora de definir as zonas. Como mostra a pesquisa no Paraná, solo argiloso e solo arenoso a poucos metros de distância podem precisar de manejos opostos.
  • Mapear e não agir. O mapa de fertilidade só vale a pena se for usado para ajustar doses — seja manualmente, seja com taxa variável.

O que isso muda no bolso do produtor

O ganho da amostragem georreferenciada não é só agronômico, é financeiro. Corrigir o solo por zona evita dois prejuízos ao mesmo tempo: parar de gastar adubo e calcário numa área que já tem o nutriente suficiente, e deixar de colher menos numa área que estava recebendo dose insuficiente escondida pela média do talhão. Com o preço de fertilizantes pesando cada vez mais no custo da safra, saber exatamente onde aplicar cada quilo de insumo é uma forma direta de proteger a margem.

Perguntas Frequentes

Amostragem georreferenciada vale para qualquer tamanho de propriedade?
Vale, mas o retorno é mais rápido em áreas maiores ou com relevo muito variado. Em talhões pequenos e uniformes, o ganho pode não compensar o custo extra em relação à amostragem convencional.

Preciso de um agrônomo para fazer esse tipo de amostragem?
É recomendável. Um agrônomo ajuda a definir a densidade de pontos, escolher entre grade ou zona de manejo, e principalmente a interpretar o mapa de fertilidade depois que o laboratório devolve o resultado.

Quanto custa mapear o solo com GPS em comparação com a amostragem comum?
O custo por amostra é parecido, mas o número total de amostras é maior, porque em vez de uma composta por talhão são várias por ponto da grade. O investimento tende a se pagar pela economia em insumos já na primeira ou segunda safra.

Dá para usar esse mapa para aplicação em taxa variável logo de cara?
Sim, desde que o maquinário ou o prestador de serviço tenha o equipamento compatível com os arquivos gerados a partir do mapa de fertilidade. Muitas prestadoras de serviço de calagem e adubação já trabalham com esse tipo de arquivo.

A pesquisa do Paraná já tem resultado definitivo?
Não. A consolidação completa dos resultados está prevista para 2029, já que o objetivo é acompanhar as sete áreas por vários anos seguidos. Mas os dados já coletados sobre a diferença entre solos argilosos e arenosos nas regiões estudadas já servem de alerta prático para quem maneja solo com essas características.