A StoneX divulgou, em 8 de outubro de 2026, a 37ª edição do seu Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities. A conclusão principal: o mercado de fertilizantes termina 2026 sem uma direção única. Os nitrogenados, como a ureia, seguem pressionados para cima por causa do conflito no Oriente Médio. Os fosfatados, como o MAP, podem cair um pouco, mas dependem de destravar gargalos de oferta. E o potássio é, segundo a análise, o nutriente com a relação risco-retorno mais favorável do momento. Ou seja: quem ainda precisa comprar adubo para a segunda safra ou para 2027 vai encontrar um cenário bem diferente dependendo de qual nutriente está comprando.
O que é esse relatório da StoneX e por que ele interessa pro produtor
A StoneX é uma corretora e consultoria que acompanha, entre outras coisas, os preços internacionais de commodities agrícolas e de insumos. A cada três meses, sua área de Inteligência de Mercado publica um relatório com a leitura do cenário global para os próximos meses. O responsável pela análise de fertilizantes nesta edição é o analista Tomás Pernías.
Esse tipo de relatório não fixa preço de tabela, mas serve como termômetro: ele ajuda a entender por que o adubo que você comprou há três meses custa diferente do que está sendo cotado agora, e para onde a tendência aponta nos próximos meses.
O que isso muda na prática para quem produz: antes de fechar uma compra grande de insumo, vale olhar esse tipo de relatório para saber se o momento é de esperar ou de antecipar a aquisição, nutriente por nutriente — porque, como mostra esta edição, eles não estão se movendo todos na mesma direção.
Fosfatados (MAP e TSP): por que o preço pode cair, mas sem garantia
MAP (fosfato monoamônico) e TSP (superfosfato triplo) são fertilizantes fosfatados, usados principalmente na adubação de base, na hora do plantio, para estimular o enraizamento. Segundo a StoneX, esses produtos podem ter um ajuste de baixa no preço até o fim do ano, mas esse ajuste é limitado por dois fatores: a falta de enxofre em quantidade suficiente no mercado global (o enxofre é matéria-prima para produzir ácido sulfúrico, usado na fabricação de fosfatado) e as restrições que a China vem aplicando às próprias exportações desses produtos.
A Rússia e o Cazaquistão mostram sinais de melhora na oferta de enxofre, mas o relatório não trata isso como um problema resolvido. Na prática, isso significa que uma queda de preço nos fosfatados pode acontecer, mas de forma lenta e sem grande folga.
O que isso muda na prática para quem produz: se você ainda vai comprar MAP ou TSP para a próxima safra, pode valer a pena fracionar a compra em vez de travar tudo de uma vez — assim você aproveita uma eventual queda sem ficar exposto demais caso o preço não ceda como esperado.
Restrições da China: o gargalo que trava o fosfatado mesmo com demanda mais fraca
Um dos pontos centrais do relatório é que a China vem limitando a exportação de MAP e DAP (outro fosfatado, o fosfato diamônico) para garantir primeiro o abastecimento da própria agricultura interna. A China é um dos maiores produtores mundiais desses insumos, então, quando ela reduz o volume que manda para fora, o efeito aparece no mundo todo, inclusive no Brasil, que importa a maior parte do fosfatado que usa.
É por isso que, mesmo com a demanda brasileira mais fraca depois do fim da semeadura da soja (que consome mais de 40% do fosfatado usado no país), o preço não despenca: falta vendedor disposto a soltar volume, não falta só comprador.
O que isso muda na prática para quem produz: não dá para contar com uma “queda garantida” de preço só porque a safra de soja já foi semeada e a pressão de compra caiu. O lado da oferta, e não só o da demanda, é quem está travando o preço do fosfatado agora.
Potássio: por que ele é apontado como o nutriente mais estável do momento
O cloreto de potássio (KCl), usado principalmente para fortalecer a planta contra estresse hídrico e doenças, aparece no relatório como o fertilizante com a melhor relação risco-retorno entre os três grandes nutrientes (nitrogênio, fósforo e potássio). Isso acontece porque os estoques globais de potássio estão confortáveis, sem sinais de escassez relevante.
Além disso, os principais exportadores mundiais de potássio — Canadá, Rússia e Belarus — não estão no centro dos conflitos que afetam outras rotas de fertilizante, como a do Oriente Médio. Isso dá mais previsibilidade ao fornecimento.
O que isso muda na prática para quem produz: entre os três grandes nutrientes, o potássio é, segundo a análise, o que oferece mais segurança para fechar compra agora, com menor risco de o preço disparar de surpresa nos próximos meses.
Nitrogenados (ureia): por que o conflito no Oriente Médio pesa tanto no preço
A ureia, principal fonte de nitrogênio usada na adubação de cobertura (aquela aplicada depois que a planta já nasceu, para dar “fôlego” ao crescimento), é o nutriente que a StoneX trata com mais cautela. O motivo é geográfico: uma parte relevante da produção mundial de amônia e ureia depende do Oriente Médio, região hoje marcada por conflito e por risco de limitação à navegação no Estreito de Hormuz, uma passagem estreita de mar por onde circula grande parte do comércio de energia e de insumos químicos da região.
Se não houver avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã, esse risco de logística tende a continuar pressionando o preço da ureia para cima. Some-se a isso a sazonalidade: o Brasil importa nitrogenado também para a segunda safra de milho, e a Índia pode aumentar suas compras de ureia em dezembro por incerteza com as monções, dois fatores que aquecem ainda mais a demanda global no fim do ano.
O que isso muda na prática para quem produz: para quem depende de ureia na adubação de cobertura do milho, o cenário pede mais atenção do que alívio. A chance de o preço cair como os fosfatados é menor, e qualquer notícia de piora no Oriente Médio pode refletir rápido na cotação.
Como se posicionar nas compras de insumos até o fim de 2026
Como o relatório mostra que cada nutriente está seguindo um caminho diferente, a estratégia de compra também precisa ser diferente para cada um. Alguns pontos práticos para organizar o planejamento:
- Potássio: por ter estoque global confortável e fornecedores fora da zona de conflito, é o nutriente com mais espaço para fechar compra com mais tranquilidade agora.
- Fosfatados (MAP/TSP): vale esperar um pouco e comprar em etapas, já que uma queda é possível, mas limitada pelas restrições chinesas e pela falta de enxofre.
- Nitrogenados (ureia): o risco está mais para cima do que para baixo. Quem vai usar na segunda safra de milho pode considerar antecipar parte da compra para não ficar exposto a uma piora súbita do conflito no Oriente Médio.
- Acompanhe o câmbio: como todos esses insumos são cotados em dólar, a variação do real frente à moeda americana influencia o preço final entregue na fazenda, independentemente da tendência internacional de cada nutriente.
O que isso muda na prática para quem produz: em vez de tratar “fertilizante” como um bloco único, o momento pede decisão separada por nutriente — potássio com mais confiança, fosfatado com paciência, nitrogenado com cautela.
Perguntas Frequentes
O preço de todos os fertilizantes vai cair até o fim de 2026?
Não. Segundo a StoneX, o cenário é misto: os fosfatados (MAP e TSP) têm chance de queda limitada, o potássio tende a ficar estável, e os nitrogenados, como a ureia, seguem com risco de alta por causa do conflito no Oriente Médio.
Por que o fim da semeadura da soja não baixou o preço do fosfatado?
Porque o problema não é só de demanda. A China, uma das maiores fornecedoras mundiais de MAP e DAP, está restringindo suas exportações para abastecer primeiro o mercado interno. Isso trava a oferta global mesmo com a demanda brasileira mais fraca depois da semeadura.
Por que o potássio está mais estável que os outros nutrientes?
Porque os estoques mundiais de potássio estão confortáveis e os principais exportadores — Canadá, Rússia e Belarus — não estão no epicentro dos conflitos geopolíticos que afetam outras rotas de fertilizante, como a do Oriente Médio.
Devo comprar ureia agora ou esperar?
O relatório da StoneX indica mais risco de alta do que de queda para a ureia, por causa do conflito no Oriente Médio e da demanda sazonal para a segunda safra de milho e para a agricultura indiana. Quem depende desse insumo na cobertura do milho pode considerar antecipar parte da compra.
O Estreito de Hormuz afeta diretamente o Brasil?
Sim, de forma indireta. Parte da produção mundial de amônia e ureia depende do Oriente Médio, e o Estreito de Hormuz é uma rota estratégica de navegação na região. Qualquer restrição ali tende a reduzir a oferta global do insumo e pressionar o preço que chega ao Brasil, mesmo sem nenhum navio brasileiro passar por lá.
