A Integração Lavoura-Pecuária (ILP), sistema que une a produção de grãos e a criação de gado na mesma área ao longo do ano, ajudou a SLC Agrícola a multiplicar por quase cinco a quantidade de bois vendidos em apenas cinco anos: de 13 mil cabeças em 2020 para 63.480 em 2025, com projeção de chegar a 76 mil cabeças na safra 2025/26. O resultado, divulgado pela própria empresa, mostra como usar a pastagem na entressafra pode virar uma segunda fonte de renda na mesma lavoura que já produz soja e milho.
O que é a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e por que ela está ganhando espaço
ILP é a sigla para Integração Lavoura-Pecuária: a prática de usar a mesma área da fazenda, em épocas diferentes do ano, para plantar grãos e para criar gado em pastagem. Na prática, depois da colheita da soja ou do milho, em vez de deixar o solo descoberto na entressafra, o produtor planta um capim (geralmente braquiária) e coloca o gado para pastar até a próxima safra de verão.
Esse tipo de sistema vem crescendo porque junta duas vantagens na mesma área: o produtor ganha uma renda extra com a venda de bois e, ao mesmo tempo, melhora o solo, porque a raiz da pastagem e o esterco do gado aumentam a matéria orgânica e ajudam a quebrar a compactação deixada pelas máquinas.
O que isso muda na prática: quem só planta soja e milho duas vezes por ano deixa a terra “parada” boa parte do tempo. Com a ILP, essa mesma terra trabalha também na entressafra, gerando receita com a pecuária sem precisar comprar ou arrendar uma área nova.
O caso da SLC Agrícola: de 13 mil para 63 mil cabeças de gado em cinco anos
A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do Brasil, começou a investir forte em ILP a partir de 2018. Segundo dados divulgados pela própria companhia, a evolução das vendas de gado foi a seguinte:
- 2020: 13.000 cabeças vendidas
- 2025: 63.480 cabeças vendidas
- 2025/26 (projeção): 76.000 cabeças, um aumento de cerca de 19,7% sobre o ano anterior
O ponto de partida foi um projeto-piloto na Fazenda Planorte, no Mato Grosso, com apenas 60 animais. André Campanini, gerente de pecuária da empresa, é o responsável por conduzir a estratégia, que hoje já está presente em sete fazendas da companhia.
O que isso muda na prática: o exemplo mostra que a ILP não precisa começar grande. É possível testar com um lote pequeno de animais numa parte da área, avaliar o resultado em uma ou duas safras, e só depois ampliar para o restante da fazenda.
Como funciona a ILP na prática: pastagem de inverno, lavoura de verão
O funcionamento básico da ILP segue um ciclo anual. Na safra de verão, a área recebe soja ou milho. Depois da colheita, no período que no Centro-Oeste coincide com o inverno (seco, de poucas chuvas), o produtor planta uma pastagem, normalmente braquiária, e solta o gado para engordar ou terminar nessa área até a próxima estação de plantio.
Na SLC Agrícola, a área total dedicada à pecuária em 2024/25 somou 11.272 hectares, dos quais 5.974 hectares foram efetivamente usados em sistema de ILP e outros 5.298 hectares como pastagem permanente, mais voltada à cria e recria do que ao giro rápido com a lavoura.
O que isso muda na prática: o produtor não precisa escolher entre “ser produtor de grãos” ou “ser pecuarista”. A pastagem temporária na entressafra é só mais uma etapa dentro do próprio calendário da lavoura, sem concorrer com a área de soja ou milho na época certa de cada cultura.
Sete fazendas entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul: por que a escala importa
Hoje a estratégia de pecuária da SLC Agrícola está distribuída em sete fazendas localizadas no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, com planos de expansão também para o Maranhão. Entre essas propriedades estão a Fazenda Pampeira, a Fazenda Planorte e a Fazenda Paiaguás, todas no Mato Grosso.
Operar em várias fazendas permite à empresa negociar melhor a compra e a venda de animais, dividir o risco climático entre regiões diferentes e padronizar o manejo, usando em uma fazenda o aprendizado que deu certo em outra.
O que isso muda na prática: para o produtor médio, a lição não é “ter sete fazendas”, mas sim manejar a ILP de forma padronizada dentro da própria propriedade, documentando o que funcionou em cada talhão para repetir o acerto nas safras seguintes.
Integração Pecuária-Floresta (IPF): o passo além da ILP
A SLC Agrícola também avançou para um sistema ainda mais completo, chamado de Integração Pecuária-Floresta (IPF), que soma à pastagem e à lavoura uma terceira camada: a plantação de árvores. Hoje a empresa já tem 833 hectares em IPF, divididos entre as fazendas Pampeira, Planorte e Paiaguás.
Na IPF, o gado pasta entre as fileiras de árvores plantadas, que oferecem sombra para os animais em dias de calor extremo e, no futuro, podem ser colhidas como madeira, gerando mais uma fonte de renda para a propriedade.
O que isso muda na prática: a IPF é um passo natural para quem já domina a ILP e quer ir além, mas exige planejamento de longo prazo, porque o retorno com a madeira só aparece depois de vários anos de crescimento das árvores.
Como aplicar a ILP mesmo numa propriedade pequena ou média
Não é preciso ter a estrutura de uma grande empresa para começar. Os passos básicos são:
- Escolher uma área que normalmente fica descoberta na entressafra da soja ou do milho;
- Plantar uma pastagem de ciclo curto, como a braquiária, logo após a colheita do grão;
- Colocar um lote pequeno de animais para testar o manejo e o ganho de peso na primeira safra;
- Reservar um prazo de pelo menos 60 a 90 dias antes do novo plantio para retirar o gado e preparar o solo sem pressa;
- Anotar os resultados de cada talhão para decidir se vale a pena ampliar a área no ano seguinte.
O que isso muda na prática: começar pequeno reduz o risco financeiro e dá tempo para o produtor aprender o manejo do gado antes de comprometer toda a área da fazenda com o sistema.
Perguntas Frequentes
Preciso ter experiência com gado para fazer ILP na minha lavoura?
Não é obrigatório, mas ajuda. Muitos produtores de grãos começam arrendando a pastagem para um pecuarista da região cuidar dos animais, e só depois de acompanhar o processo decidem comprar o próprio gado.
A ILP compete com o espaço da soja ou do milho?
Não, porque a pastagem entra no período em que a área normalmente ficaria sem uso, entre a colheita de uma safra e o plantio da próxima. O calendário é montado para não atrasar a lavoura principal.
Quanto tempo leva para ver resultado financeiro com a ILP?
No caso da SLC Agrícola, o piloto começou em 2018 com apenas 60 animais e, em poucos anos, cresceu para dezenas de milhares de cabeças vendidas por ano. Em propriedades menores, já é possível perceber ganho na qualidade do solo e uma renda extra a partir do primeiro ou segundo ciclo de pastejo.
A braquiária prejudica a próxima safra de soja ou milho?
Quando manejada corretamente, com tempo suficiente para dessecação antes do plantio, a braquiária melhora a estrutura do solo e deixa palhada protegendo a lavoura seguinte, em vez de prejudicá-la.
Vale a pena investir em Integração Pecuária-Floresta (IPF) desde o início?
Para a maioria dos produtores, o caminho mais seguro é dominar primeiro a ILP, entendendo o manejo do gado e da pastagem, antes de somar o componente florestal, que exige planejamento de prazo mais longo.
