O Brasil acaba de sancionar o Profert, o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, criado pela Lei 15.496/2026 para reduzir a dependência externa de adubos. Ao mesmo tempo, dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) mostram que o fertilizante importado ficou 12,8% mais caro em agosto de 2026 na comparação com agosto de 2025, mesmo com o volume comprado caindo 43,2% no período. Ou seja: o governo está mexendo nas regras do jogo justamente no momento em que o produtor sente o aperto no bolso na hora de adubar a lavoura.
O que é o Profert e por que ele foi criado
O Profert é um programa federal sancionado em 3 de setembro de 2026, por meio da Lei 15.496. Na prática, ele autoriza a União a direcionar recursos para linhas de financiamento via BNDES (o banco de desenvolvimento do governo) destinadas a quem produz fertilizante dentro do Brasil, como fábricas de ureia, de fosfatados e de potássio.
A ideia por trás do programa é simples de entender: hoje o Brasil compra a maior parte do adubo que usa de fora, e isso deixa o produtor exposto a guerras, câmbio e decisões de outros países. O Profert quer estimular empresas a instalarem ou ampliarem fábricas de fertilizante em solo brasileiro, criando mais oferta nacional ao longo dos próximos anos.
O que isso muda na prática para quem produz: não é um programa que baixa o preço do adubo amanhã. É uma aposta de longo prazo para que, daqui a alguns anos, a fazenda dependa menos do navio estrangeiro e dos sobressaltos do mercado internacional.
Por que o Brasil depende de 85% dos fertilizantes importados
Segundo dados do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), cerca de 85% dos fertilizantes usados nas lavouras brasileiras vêm de outros países. O Brasil planta e colhe como poucos no mundo, mas não produz matéria-prima suficiente de nitrogênio, fósforo e potássio para abastecer sua própria agricultura.
Essa conta de importação se concentra em poucos fornecedores. Em 2025, segundo o Banco Central, a Rússia respondeu por 25,9% das compras brasileiras de fertilizantes, a China por 18,8% e o Oriente Médio por 14,5%. No caso dos nitrogenados, como a ureia, cerca de 22% do volume importado veio justamente do Oriente Médio, região marcada por conflitos que afetam a navegação e a produção de insumos.
O que isso muda na prática para quem produz: qualquer problema político ou logístico nesses países — um conflito, uma sanção, uma mudança de rota de navio — chega direto no preço do adubo da sua fazenda, muitas vezes sem aviso prévio.
Fertilizantes importados ficam 12,8% mais caros: o que os números do MDIC mostram
O MDIC registrou que o preço médio do fertilizante importado chegou a US$ 403,20 por tonelada em agosto de 2026, uma alta de 12,8% frente ao mesmo mês de 2025. E essa não foi uma alta isolada: os dados acumulados do ano mostram subidas de 18,2% em maio, 26,2% em junho e 18,8% em julho, sempre na comparação com os mesmos meses do ano anterior.
A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) já havia apontado, em levantamento de maio, que entre janeiro e abril de 2026 o volume importado de nitrogenados e fosfatados caiu 4%, mas o valor gasto com essas compras subiu 16%. Ou seja: o Brasil está pagando mais para trazer menos adubo de fora.
Queda no volume, alta no preço: a conta que não fecha
Em agosto de 2026, o volume total importado foi de 2,97 milhões de toneladas, 43,2% abaixo do mesmo mês de 2025. Para quem está na lavoura, esse dado pode até parecer bom à primeira vista — afinal, menos importação poderia significar mais produção nacional. Mas, segundo analistas do setor, a redução de volume não tem relação direta com o crescimento da indústria brasileira: ela reflete principalmente o momento mais cauteloso de compra dos próprios produtores, que estão comprando menos e mais perto da hora de usar, por causa do preço alto.
O que isso muda na prática para quem produz: o fato de o Brasil importar menos fertilizante não quer dizer que o adubo ficou mais barato ou mais fácil de conseguir. Pelo contrário: cada tonelada que chega custa mais caro, e isso pressiona direto o custo de produção da soja, do milho e de outras culturas na safra 2026/27.
Como funciona a meta de mistura obrigatória do Profert
A Lei do Profert não distribui dinheiro direto ao produtor, mas cria metas de uso de fertilizante nacional que vão mudar o mercado nos próximos anos. A partir de 1º de julho de 2027, começa a valer uma exigência de mistura obrigatória: pelo menos 2% dos fertilizantes vendidos no país terão que ter origem nacional. Essa fatia sobe para 10% a partir de 1º de janeiro de 2037, e a partir de 2038 o Confert (o conselho que vai administrar o programa) poderá fixar um percentual entre 10% e 30%.
O programa também prevê avaliações de efetividade a cada dois anos e relatórios anuais públicos, para acompanhar se as metas estão sendo cumpridas e se a dependência externa está, de fato, caindo.
O que isso muda na prática para quem produz: o efeito direto no bolso do produtor só deve aparecer de forma relevante na próxima década. Por enquanto, o Profert é mais um sinal de que o governo reconhece o problema do que uma solução imediata para o preço do adubo na revenda.
O que fazer agora, enquanto o Profert não decola
Como as metas do Profert são de médio e longo prazo, quem toca a lavoura precisa continuar se protegendo da alta de preço no curto prazo. Algumas saídas práticas ajudam a atravessar esse período de adubo caro e importado:
- Atualize a análise de solo: saber exatamente o que a sua terra já tem evita comprar e aplicar fertilizante além do necessário, economizando em um momento de preço alto.
- Negocie a compra em etapas: parcelar a reposição de estoque, em vez de comprar tudo de uma vez, reduz o risco de pagar o pico do preço em dólar.
- Converse sobre bioinsumos e inoculantes: produtos como inoculantes bacterianos ajudam a reduzir a dependência de adubo nitrogenado importado em culturas como a soja.
- Acompanhe o câmbio: como o fertilizante é cotado em dólar, uma variação na cotação da moeda impacta direto o preço final entregue na fazenda.
O que isso muda na prática para quem produz: enquanto a produção nacional de fertilizante não cresce de fato, a eficiência no uso do adubo que você já compra continua sendo a ferramenta mais rápida para proteger a margem da safra.
Perguntas Frequentes
O Profert vai baixar o preço do fertilizante já na próxima safra?
Não. A lei cria metas de mistura obrigatória de fertilizante nacional que só começam a valer em julho de 2027, com apenas 2% de participação nacional. O efeito sobre o preço na revenda deve ser gradual e só deve ficar mais relevante a partir da década de 2030, quando as metas sobem para 10% ou mais.
Por que o Brasil importa tanto fertilizante se é um dos maiores produtores agrícolas do mundo?
Porque produzir grãos e produzir a matéria-prima do fertilizante (como rochas fosfáticas, potássio e gás natural para fazer nitrogênio) são duas coisas diferentes. O Brasil tem solo e clima favoráveis para plantar, mas não tem reservas e infraestrutura suficientes para fabricar todo o adubo que sua lavoura consome, por isso compra cerca de 85% do que usa.
Por que o preço do fertilizante subiu mesmo com menos volume sendo importado?
Porque o preço por tonelada no mercado internacional subiu mais do que o volume caiu. Dados do MDIC mostram alta de 12,8% no preço médio em agosto de 2026, enquanto o volume importado recuou 43,2% no mesmo mês — ou seja, o produtor brasileiro está pagando mais por cada tonelada que chega ao país.
Vale a pena esperar o Profert fazer efeito antes de planejar a compra de adubo?
Não é recomendado. Como as metas da lei só começam em 2027 e sobem de forma gradual até 2037, esperar o programa resolver o problema de preço pode custar caro no curto prazo. O ideal é seguir planejando a compra de fertilizante com base no mercado atual, usando análise de solo e compra escalonada para reduzir o impacto da alta.
O que é o Confert, citado junto com o Profert?
O Confert é o conselho que vai administrar o Profert, responsável por regulamentar critérios do programa e, a partir de 2038, por decidir o percentual exato (entre 10% e 30%) de fertilizante nacional que deverá ser misturado ao produto vendido no Brasil.
